ASCENDENS

TEXTOS NA TRADIÇÃO

Que Espírito? (II)

Parte II

Fátima C. F. – O Sr. Dr. disse que a Europa era um projecto político e de paz e só depois um projecto económico e financeiro. Qual é então o espaço que fica para as religiões na Europa e nesse … E porventura as religiões têm espaço nesse tratado?

Mário Soares – Todas as religiões são um fenómeno cultural. É evidentemente que o mundo está dividido entre os que acreditam, acreditam em Deus, suponho que todas as religiões possam considerar que há um Deus único. Será que há? Pois para as religiões monoteístas isso é evidente. Para aquelas que não são monoteístas é evidente que não é assim, porque há vários deuses. Mas, há outras pessoas que consideram num deus panteísta, num deus de uma força de energia, num deus… Bem, há muitas concepções diferentes.

A Europa tem vindo a fazer todos os países… é uma evolução de todos os países europeus que tem vindo a fazer uma distinção entre o que é política, o que é o estado e o que são as igrejas. E essa questão foi uma questão em Portugal trágica no … princípio do final da monarquia, no princípio da república, entre a separação da Igreja e do estado e isso verificou-se que foi uma lei sábia, porque inclusivamente o próprio Dr. Salazar não pôs em causa o essencial da lei de separação da Igreja e do estado. E hoje, a separação entre a Igreja e o estado é uma coisa aceita em quase todos os estados.

Fátima C. F. – Já lá vamos à questão da separação entre a Igreja e o estado.

Sr. Cardeal D. José Saraiva Martins, muito boa tarde, bem-vindo de Roma até Lisboa, mais uma vez, neste caso até a Fátima, onde estamos.

O senhor há tempos… eu ia dizer que publicou, mas não publicou, mas fez em Lisboa um magnífico decálogo sobre a nova Europa. E eu não sei se o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa teve a oportunidade de assistir, foi na Universidade Lusíada, e foi uma lição cultural e confessional também, interessantíssima.

Eu a pergunta que lhe faço é mesma que fiz ao Sr. D. José Policarpo: até que ponto este novo tratado constitucional reflecte os valores que são inalienáveis da pessoa humana?

D. Saraiva Martins – Eu acho, antes de mais nada, que o novo tratado de Lisboa era urgente, necessário. Porque os Leia o resto deste artigo »

Que Espírito? (I)

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“FORÇA DO ESPÍRITO”

Programa transmitido pela RTP a 13 de maio de 2007

Intervenientes: D. José Policarpo, Mário Soares, D. José Saraiva Martins, Marcelo Rebelo de Sousa e D. António Marto

Local: Santuário de Fátima, às portas da Igreja da Santíssima Trindade

Moderadora: Fátima Campos Ferreira

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Parte I

Fátima C. F. – Boa noite. Raras vezes temos oportunidade de reunir, no mesmo debate, notáveis da Igreja e outros ilustres da sociedade. Este é um momento histórico para o santuário de Fátima. A recente inauguração da Igreja da Santíssima Trindade é uma oportunidade para reflectirmos nas relações entre a Igreja e a sociedade, numa altura em que polémicas como a das capelanias ganham espaço na actualidade. Há ainda a importância do diálogo inter-religioso, ou mesmo entre religiosos e não religiosos ou entre os crentes e não crentes. E vale também a pena debater o futuro da Igreja numa Europa integrada e cada vez mais alargada, a influência da raiz cristã na cultura europeia.

Por último, no séc. XXI, o que significa “a força do espírito”? Que importância tem nas sociedades contemporâneas, nas religiões e na paz? Estamos aqui, junto ao templo mais recente do país, a igreja da Santíssima Trindade, no santuário de Fátima. A meu lado tenho os cardeais D. José Policarpo, D. José Saraiva Martins, o bispo de Leiria-Fátima D. António Marto, e ainda Mário Soares, presidente da comissão da liberdade religiosa, e Marcelo Rebelo de Sousa.

Muito obrigada meus senhores por terem acedido dar estas entrevistas, que serão um pequeno debate, um pequeno diálogo num momento histórico, como disse, para o santuário de Fátima.

Ora bem. Senhor D. José Policarpo, começo por si.

Na próxima quinta-feira vai ser assinado em Portugal o tratado constitucional europeu, que tem sido bem acompanhado pela Igreja, desde já á longo tempo. Ora em Dezembro passado o Papa Bento XVI visitou a Turquia e, juntamente com o Patriarca Ecuménico de Constantinopla, Bartolomeu I, assinou uma declaração conjunta de valorização de do caminho da unificação europeia, traçando também a noção da essência dos direitos humanos e do diálogo inter-religioso.

O senhor pensa que estes direitos inalienáveis da pessoa humana, como assim ficou registado nesse documento, estão bem salvaguardados no texto deste tratado constitucional?

D. José Policarpo – Eu deva reconhecer, para honestidade com os nossos ouvintes, que não tive oportunidade de ler o novo texto do tratado europeu, que pelos vistos vai ser assinado em Lisboa e Leia o resto deste artigo »