QUE ESPÍRITO? (5)

by ASCENDENS(Pt.)

Fátima – Há pouco, o D. José Saraiva Martins, referiu que a questão das capelanias, nos hospitais e nas prisões, é também uma questão de cidadania e de democracia. Senhor D. António Marto, o senhor não pôde ainda comentar esta pergunta que fiz no início ao Senhor D. José Policarpo. Qual é a sua opinião?

D. Marto – É só, enfim, um apontamento de esclarecimento mais por causa dos nossos ouvintes: a distinção da laicidade e do laicismo. A laicidade é, de facto, um valor da democracia europeia, característica, mas é também um princípio evangélico e um princípio de doutrina social da Igreja. Portanto, para os católicos, não há nenhum problema quanto à questão da laicidade. O estado é laico, não confessional, o que não quer dizer que o estado olhe para o fenómeno religioso com desprezo. E aqui vem a distinção do laicismo: o laicismo é já uma atitude ideológica que remete o fenómeno religioso apenas para o foro da consciência, o foro provado, na melhor das hipóteses a sacristia ou a Igreja não lhe reconhece essa dimensão cultural e social que ele tem e faz parte da condição da existência humana. Nesse aspecto há aqui uma minoria, digamos assim, laicista entre nós, de um laicismo ideológico, diria dogmático. Mas, felizmente, e também queria salientar, encontramos na nossa sociedade pessoas laicas, mesmo sem referência à “fé cristã”, com está aqui o senhor Mário Soares, e outros, que sabem distinguir muito bem entre laicidade e laicismo.

Fátima – Indo ao terreno, concretamente. O senhor acha, por exemplo, a lei, há alguns anos aprovada em França, a lei da laicidade, pode de alguma forma vir a reflectir-se nalguns laivos de laicismo, na sua concretização na sociedade?

D. Marto – Quer dizer… há uma minoria que tenta isso. Mas, por outro lado, temos a Concordata, porque a laicidade respeita a autonomia própria do Estado como a autonomia própria da Igreja, mas na colaboração. Quer dizer, a autonomia não se opõe à colaboração como na relação entre as pessoas. Todos somos autónomos, na nossa consciência, na nossa individualidade. E não vivemos de costas voltadas uns para os outros. Portanto, a mesma coisa na relação do estado com as “igrejas”, ou com as confissões religiosas. Quer dizer. É uma autonomia mas dentro de uma colaboração ao serviço do bem comum.

Fátima – Em Portugal tem a Concordata.

D. Marto – Sim. E acho que também a ideia predominante de uma saudável laicidade. Depois, quanto à questão das capelanias, eu creio que não vale a pena estar a insistir muito. Está num bom andamento pronta a ser resolvida, neste diálogo. Houve uns equívocos, uns “quid pró quod”, mas que serão brevemente ultrapassados. Alem disso está aqui em causa também um aspecto de concepção de saúde. A saúde não olha para o homem só como uma máquina a quem se concerta ou substituem certas peças, neste caso concreto do organismo, mas como um todo, na totalidade. Uma concepção holística de saúde da qual faz também parte a dimensão espiritual, e por isso também ela requer consideração, respeito, portanto todas as condições para que ela possa ser acolhida.

Fátima – Muito bem. Senhor D. José Policarpo, depois das polémicas declarações do papa Bento XVI, já há algum tempo, em Ratisbona, na Alemanha, que percurso é que acha que tem sido feito pelo diálogo inter-religioso? O Senhor acha que o Papa, depois dessas declarações, tem tido ele próprio a lançar as bases consistentes nesse diálogo. Que caminho tem feito esse diálogo?

Cardial Patriarca – Uhm… Esse discurso do Santo Padre em Ratisbona, para já, era um discurso de um académico, foi o professor que voltou à sua antiga universidade, e, curiosamente, hoje, aspecto que ninguém sublinhou na altura, porque ele teve o acaso de fazer uma citação de uma autor que eu também conheço, que é, aliás, um diálogo muito interessante, entre o imperador e aquele muçulmano, e polarizou …. Porque o desafio do Papa não imã para o islamismo, ia para a racionalidade europeia e para uma sã racionalidade europeia. Bem, mas enfim, isso agora não interessa, não vamos aqui discutir Ratisbona e o seu efeito posterior.

Fátima – Até porque depois o Papa Bento XVI recebeu vários líderes religiosos, em Castelgandoflo, creio eu.

Cardeal Patriarca – Quanto à questão do diálogo inter-religioso. O diálogo inter-religioso é necessário, é um caminho para a paz, é um caminho para a humanização do mundo. Não é fácil. E começa, em primeiro, pelo respeito profundo que cada um de nós deve ter pelas convicções religiosas do seu próximo. Não sei se isso está adquirido, se está adquirido na sociedade e se está adquirido nas próprias religiões, no interior das próprias religiões. Depois, passa por um outro aspecto, e esse ainda está menos adquirido, que é mínimo conhecimento que uns devem ter dos outros. Que eu cristão, cristão católico, devo ter para poder dialogar do essencial dos meus irmãos que são islâmicos, que são budistas, e que o desconhecimento, digamos assim, do universo religioso dos outros é muito grande. Começa por ser muito grande às vezes por dentro do próprio universo religioso. Bem, e por isso dificulta o diálogo inter-religioso. E depois há um terceiro escolho, que aqui no ocidente nós sentimos muito, e eu aqui penso que o papel é de todos nós mas é uma interpelação que eu já tenho feito, e que faço aos políticos do ocidente e do diálogo com o resto do mundo, é que os aspectos que dificultam muito o diálogo inter-religioso é que em muitos países do mundo não existe nem a lei nem sequer a desconfiança do que é uma liberdade religiosa. E, portanto, enquanto a humanidade não der um paço significativo na linha universal do conhecimento da liberdade religiosa o diálogo inter-religioso será um escolho muito difícil de ultrapassar. E, finalmente, eu penso que há um outro escolho, que em cada caso se resolve, mas… é que o diálogo inter-religioso tem um obstáculo: é que eu não vou abdicar daquilo em que eu acredito para estar em diálogo com o meu vizinho, ou para ser simpático com o meu vizinho. Portanto, aquilo que é, digamos assim, no aspecto da Fé propriamente dita, digamos, no aspecto dogmático de cada uma das “fés”. E isso é muito difícil. Eu posso estar na melhor das harmonias com os meus irmãos muçulmanos, e tenho muitos amigos muçulmanos, com quem eu, e o DR. Mário Soares, temos participado várias vezes naqueles encontros da Comunidade de Santo Egídio, onde fizemos muitos amigos. Estão hoje espalhados por todo o mundo, não é? Mas nenhum deles, nem eu, estamos dispostos a abdicar minimamente daquilo em que acreditamos porque estivemos numa reunião mundial de diálogo iter-religioso ou porque queiramos ser simpáticos para com eles. E, portanto, eu, hoje, tenho tendência, sem anular o diálogo religioso propriamente dito, e que se passa nas instâncias próprias onde é necessário que ele se faça, eu tenho uma tendência em valorizar o diálogo inter-cultural. Eu penso que o grande desafio da humanidade, hoje, é o diálogo inter-cultural. As culturas abertas umas às outras. Porque o cultural não se identifica com o religioso. O religioso pode influenciar o cultural mas…

Fátima – Ó Senhor D. José, devo transferir isso em termos de linguagem política para a aliança das civilizações?

Cardeal Patriarca – É o mesmo. Quer dizer, repare… a expressão de “aliança de civilizações” é uma expressão bonita, tem o seu que de pomposo, hoje até temos o nosso DR. Jorge Sampaio a presidir a uma Comissão das Nações Unidas, com quem eu já tenho conversado, ele teve a simpatia de me entregar um manifesto básico dessa … Mas.. é a mesma coisa. Portanto, no fundo, o que é que aconteceu de novo neste últimos 50 anos? É que o mundo, sobretudo pela mediatização radical que tem, o mundo deixou de ser desconhecido uns dos outros. Tornou-se próximo, tornou-se inevitavelmente, eu diria, cúmplice e coincidente de tudo aquilo que se passa no mundo, e portanto aí é preciso fazer uma coisa que é sadia quando nós somos capazes de a fazer, mas não é fácil: que é de olhar para o vizinho do lado, vendo o melhor que ele tem e não o pior que ele tem. E se nós formos capazes de olhar para as civilizações, para as religiões, para as culturas… primeiro ver aquilo que é comum… e o melhor que eles têm… e eu creio que o mundo pode dar passos em frente na linha da superação dos conflitos.

Fátima – Vejo aqui uma convergência interessante. Eu penso que o DR. Mário Soares, vou antecipar isso, vai concordar. O Senhor D. José Policarpo privilegiou a aliança das civilizações, naquilo que diz ser o “diálogo cultural”, ao diálogo inter-religioso. O Sr. DR. Mário Soares pensa também que esse diálogo cultural inter-cultural que é o mais importante?

Mário Soares – Bem… são …

Fátima – No caminho para a paz, no caminho para o relacionamento entre as religiões?

Mário Soares – Bem, no plano político, evidentemente que a aliança das civilizações, que não tem tido, enfim, o impulso que deveria ter tido, mas que eu acho que é importantíssimo, é fundamental para estabelecer a paz. Estamos longe de chegar a esse caminho. E estamos muito longe de chegar a um caminho de governabilidade mundial, que é indispensável, que implicaria a reforma das Nações Unidas e muitas outras coisas. Eu estou convencido que o ano que vem aí, sem querer ser profeta, nem tenho vocação, mas estou convencido que o ano de 2008 é um ano que vai ser propício a grandes mudanças por causa da situação na América (U.S.A). A situação na América não se pode manter, o descrédito da América no mundo é gravíssimo e qualquer que seja o novo presidente americano vai ter que mudar a política. E Por aí nos vamos avançar muito. Vamos avançar muito e é fundamental que isso aconteça, porque senão, todo o ocidente, e nós também europeus, os americanos etc.., entra em grande decadência. E isso era gravíssimo para a paz no mundo, para o progresso etc.

Mas, eu queria voltar ainda à questão da laicidade num sentido. Os católicos, normalmente, tiveram a experiência da primeira república. Eu também a tive, no sentido contrário. E houve, nomeadamente na primeira república, um grande anticlericalismo. Mas o anticlericalismo gera o clericalismo, e vice-versa.

Fátima – Pela vitimização.

Mário Soares – Sim. E isso é grave. E eu tinha, quando regressei do meu exílio em França, depois do 25 de Abril, tive sempre a preocupação de evitar que se caísse nos erros da primeira república. Demorou 16 anos. Nós já estamos há 32 anos, já duplicámos. O que já não é nada mau, mas espero que vão continuar muitos anos. E justamente nunca se deixou que a segunda república portuguesa, a actual, na que vivemos, tenha sido anticlerical. Isso nunca foi permitido. E eu, como Presidente da Comissão Para a Liberdade Religiosa, tenho o dever de velar por isso. Não haverá anticlericalismo para que também não haja clericalismo. Percebe?

(Veja os vídeos do “debate” AQUI)

Anúncios