QUE ESPÍRITO? (3)

by ASCENDENS(Pt.)

Cultura.

Fátima – Estamos aqui junto à igreja da Santíssima Trindade, e eu penso que o nosso realizador tem mostrado imagens do interior desta igreja, e é interessante, num momento histórico para o Santuário de Fátima, também coincide, mais ou menos, porque também é esta semana que se espera que o tal tratado constitucional seja assinado em Lisboa. Mas nos últimos tempos tem havido uma polémica na sociedade portuguesa, Senhor D. José Policarpo, sobre a possibilidade do estado poder vir a retirar apoios as capelanias, quer nos hospitais quer nas prisões. Ora isto tem suscitado alguma polémica, muita discussão. E o Senhor D. Eurico Dias Nogueira, por exemplo, afirmou publicamente que o estado português está a confundir laicidade com laicismo. Qual é a sua opinião Senhor D. José Policarpo?

P.L. – Ora bem, eu, antes de mais, gostava de dizer que esta polémica foi sadia, ham. Quer dizer, portanto, eu penso que a Igreja se foi habituando nestes últimos tempos, depois do Concílio Vaticano II, a resolver as questões da relação com a sociedade e concretamente com os governos, não numa óptica de dogmática, de declaração só de princípios, mas numa óptica de diálogo e de… e o diálogo está estabelecido. E portanto, a polémica que se levantou penso que ajudou o Governo e à comunidade a esclarecer uma questão. E é uma questão que tem a ver com uma coisa que já aqui foi abordada, e eu pegando na sugestão do Prof. Marcelo e agora na do Senhor D. António, eu, com certeza, afirmar o valor das religiões… Para mim há uma questão mais englobante, o bem espiritual das pessoas como fazendo parte do bem-comum. Quer dizer, nós hoje estamos muito atentos ao “bem económico”, ao “bem dos direitos fundamentais”, e esquecem-se que todo o ser humano, quer seja crente quer não seja crente, tem dimensões espirituais que são culturais que podem ser religiosas, mas que são dimensões espirituais que fazem parte do seu equilíbrio e da sua realização pessoal. E nenhum estado que se preocupe com o bem-comum pode desconhecer essa dimensão espiritual do ser humano. Ora bem, o caso que apontou é, e como lhe digo o diálogo está restabelecido, e há acordo entre as partes. O que está em questão não é uma prioridade da Igreja, não é isto ou aquilo, é, pura e simplesmente, uma coisa muito simples, é que a doença e, sobretudo a doença quando é grave, quando põem a hipótese de o ser humano chegar ao fim da sua vida, é uma experiência de densidade existencial que nenhum de nós pode imaginar como é que cada um de nós vai reagir diante dela! Quer seja crente quer seja descrente. Nenhum de nós pode fazer um filme de como é que vai reagir, e a nossa experiência é depois religiosa é, mas é depois, sobretudo, de humanização, de uma presença da valorização… olhem da tal fraternidade, da tal bondade, do tal “abrir o horizonte” de esperança no momento em que para muitos a esperança parece que acabou. Bem, e isso é fundamental e penso que o estado tem que …

Fátima – É um serviço público?

P.L. – É um serviço público, não tenho dúvidas nenhumas. Não sei se tem a categoria de… É um serviço da comunidade. Eu chamo-lhe a atenção para um facto que até há 20 30 anos a maior parte dos portugueses adoeciam e morriam em casa.

Fátima – Exactamente.

P.L. – E ai a assistência era espontânea. Quer dizer, as pessoas chamavam o pároco, o pároco visitava as famílias, e visitava os doentes. Hoje, os números que eu tenho, que até foram o Senhor Ministro da Saúde quem mos deu, e eu até pensava que eram mais, rondam os 55% das pessoas morrem nos hospitais. Portanto, hoje as pessoas adoecem e vão para o hospital.

Fátima – Os que morrem em casa é porque sucumbiram durante a noite, na maior parte. De resto os cuidados paliativos em casa são muito raros.

P.L. – Significa que os hospitais têm que criar espaço para esta humanização, para este serviço à comunidade, que é o serviço de ordem espiritual. A sua pergunta, se isso tem a ver com laicismo ou não tem, repare: eu a esse propósito devo-lhe dizer o que penso e estou de acordo com o Senhor Doutor Mário Soares que a laicidade é, na época moderna, um dos valores adquiridos pela cultura europeia, pelas democracias europeias. Há mesmo um autor que diz que negar a laicidade do estado é negar a própria natureza do estado democrático. Agora não nos esqueçamos que a laicidade surgiu no processo dialéctico, em que se afirmou sobretudo com dessacralização do poder político e do estado. Portanto, viemos de um tempo em que o poder era… é… tinha a sua autoridade na dimensão sagrada: divinização do Imperador romano ou consagração pelo poder religioso do Papa. Bem, as coisas eram mais ou menos sucedâneas umas das outras. Curiosamente, o Cristianismo surge como a primeira manifestação de dessacralização do poder. Devo reconhecer que depois não foi coerente durante séculos com o “dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Mas nós temos, no Cristianismo nascente, nas próprias palavras de Cristo, num tempo onde tudo era sacralizado, a primeira tentativa de dessacralização do poder. Bem… realmente a laicidade, como valor positivo, afirma-se como (édito?), traz, acarreta, põe em questão, por exemplo: que o princípio da unidade do estado e da sociedade é o poder religioso. E daí o velo princípio que a “religião do Rei é a religião do povo”, uma religião única que ajuda a unidade da nação. Mas isto trouxe como revés, como a outra face de medalha, a falta de respeito pela “liberdade de consciência”, as guerras religiosas, a Inquisição com o que ela significou de braço secular apoiado pela Igreja ao serviço desse princípio unificador da nação. Mas cautela… essa tendência não está completamente ultrapassada: de tentar a unidade do estado e da nação… para já há sempre o risco, que eu penso que continua real na actualidade, de uma tendência de unificação do estado com a sociedade. E não é. O estado é um serviço, é uma estrutura, é uma estrutura estruturante, passe o pleonasmo, e é um serviço da sociedade. Mas esse risco não está ultrapassado. E o último exemplo que nós tivemos, dramático, na Europa e que se estendeu depois ao resto do mundo, foi o marxismo-leninismo como ideologia unificadora, drasticamente unificadora, de toda a sociedade, não é?! Bem… até que ponto o dar uma interpretação da laicidade fazendo, digamos assim, da negação do religioso ou do cultural ou do espiritual como princípio unificador da sociedade, até que ponto isso está completamente erradicado das nossas cidades contemporâneas? Eu pessoalmente, que analiso com gosto estes fenómenos, tenho medo que não estejam, tenho medo que não estejam. O laicismo, em si mesmo, não existe. Os “ismos” significam abusos de valores que são em si mesmos positivos. E portanto o laicismo é o abuso da laicidade, portanto é uma má interpretação da laicidade, que tende a transformar-se em filosofia inspiradora, porventura numa nova religião inspiradora.

Fátima – Sem prejuízo de, certamente do comentário que o presidente da comissão religiosa vai fazer às palavras do Senhor D. José Policarpo, eu gostava que o senhor me respondesse também concretamente a esta questão. É evidente que nas democracias o eixo principal é o eixo da cidadania. Ainda assim o senhor concorda com o que disse o Senhor D. José Policarpo: o serviço espiritual pode ser um serviço público? É um serviço público?

Mário Soares – Naturalmente. Mas o serviço espiritual não é só o serviço religioso. Há espiritualidade que não é religiosa. Portanto, é preciso ter em conta também aqueles que são crentes e aqueles que não são crentes, numa sociedade. E é a boa convivência entre esses que é fundamental. E daí a laicidade. E daí que o estado esteja separado das igrejas, no plural, quaisquer que elas sejam, mesmo que fosse de uma igreja de um cientismo que se usou no final do séc. XX ou talvez em meados do séc. XX, que era desagradável, da negação da religiosidade. Ora, eu estou de acordo, e não podia ser presidente desta comissão a que fez referência, para a liberdade religiosa, se não fosse partidário absoluto da “liberdade religiosa” como de todas as outras liberdades, sem excepção, e de todos os valores humanos que proferiu o Senhor Cardeal. Obviamente que sim. E quando se fala da igualdade e da fraternidade e da liberdade eu lembro que essa é a trilogia da Revolução Francesa: a liberdade, a igualdade e a fraternidade. E eu sou pela fraternidade e sou pela solidariedade. Agora… realmente aqui o fenómeno religioso é um fenómeno que eu respeito em absoluto… em absoluto. Porque as pessoas têm … e é essa exactamente a diferença que há entre os agnósticos e os ateus: porque os ateus negam a existência de Deus, e os agnósticos, como eu, não sabem responder a essa pergunta, porque não sabem responder a essas perguntas do absoluto. Isto é um outro plano da racionalidade humana que eu respeito e que tem várias fórmulas, múltiplas formas, mas é outro. Realmente, eu sou a favor da convivência entre as religiões e penso que as religiões podem dar contributos extraordinários na sociedade actual.

Fátima – Ó Senhor DR. Mas qual é a diferença entre o laicismo, a diferença ou a fronteira, entre o laicismo e a laicidade hoje?

Mário Soares – Bem… é uma diferença um pouco especiosa como o Senhor Cardeal mostrou, com o que eu estou de acordo.

Fátima – O laicismo pode tornar-se num credo?

Mário Soares – Não. O laicismo não pode tornar-se num credo, como é evidente! Eu não tenho medo que isso aconteça. Não tenho medo que isso aconteça, porque, numa sociedade democrática e plural é evidente que todas as religiões têm…, desde que sejam religiões com princípios éticos fundamentais, e que não entrem em colisão com o os direitos humanos, hoje os direitos humanos… há uma declaração universal dos direitos humanos, e há uma declaração dos direitos europeus. E agora há a declaração dos direitos que vai entrar dentro da constituição e passa a ter um valor jurídico e vinculativo. Portanto isso está absolutamente defendido e não penso … . Agora, eu, gostaria de acentuar que é preciso termos a ideia de que o fenómeno religioso é importantíssimo. Porquê? Porque o fenómeno religioso, na sua própria espiritualidade, e isso é comum a todas as religiões, é defensor da paz… Há o fanatismo, há os fanáticos, mas isso é outra questão. Mas é um fenómeno defensor da paz, é um fenómeno defensor da solidariedade e do amor pelo próprio. E portanto, que luta contra a pobreza, e que luta contra a violência. E essa luta, luta contra o egoísmo e contra o consumismo e contra o capitalismo selvagem.

Fátima – Essa luta também é sua Senhor DR. Mário Soares…

Mário Soares – Pois claro que essa luta é minha, evidentemente que é minha, nisto não há diferenças nenhumas. E essa é que é a mais importante de todas, neste momento. Porque nós estamos a atravessar uma crise do mundo, pelo estado do mundo, uma crise complicada do estado do mundo. E essa crise, estamo-la a atravessar porquê? Porque não há respeito pelo próximo. Porquê não há o conceito de que o outro tem direito à sua diferença, seja ela qual for, e manifesta em que sentido for. Tem direito, desde que respeite os direitos e os valores que estão consagrados na declaração universal dos direitos do homem. Esse é que é o grande passo que foi dado em frente no séc. XX. Portanto, eu penso que posso defender a liberdade religiosa, devo defender a liberdade religiosa, sempre a defendi, porque considero que o diálogo inter-religioso é fundamental para a paz no mundo. Primeiro ponto. Isso vê-se, por exemplo, nas situações como as do médio oriente: é fundamental desenvolver esse diálogo religioso. Vários Papas têm feito, e não só Papas, também os protestantes forma muito partidários do diálogo inter-religioso.

Fátima – Antes de entrarmos mais nesse tema …

Mário Soares – Mas, para além do diálogo inter-religioso, é preciso o diálogo entre os crentes e os “não crentes”.

(Veja os vídeos da “entrevista” AQUI)

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