CARDEAL PATRIARCA DE LISBOA – JUDITE I

by ASCENDENS(Pt.)

Judite de Sousa – A questão do referendo, e da matéria a referendar, não poderiam deixar indiferentes os católicos, nem tal seria de esperar tão pouco. A sua posição é conhecida, veiculada através dos membros do claro e dos movimentos e associações que se constituíram, e traduz-se num apelo ao “NÃO”. Mas eu diria também que a Igreja se tornou uma importante fonte de notícia nos últimos tempos: a fuga do Pe. Frederico Cunha, o apoio que lhe foi manifestado por alguns Bispos, o afastamento do Pe. Carlos Costa da paróquia de Pedrógão Grande (pai de uma menina de 8 anos), foram alguns dos assuntos que tiveram mais expressão tiveram na comunicação social e por conseguinte na opinião pública; aliás o caso de Carlos Costa foi até noticiado na conceituada revista TIME.

A Igreja é fonte de notícia também pela figura do novo Patriarca de Lisboa, que formalmente não é chefe da Igreja católica portuguesa. Aos 62 anos D. José Policarpo assume mais um desafio de uma vida intensa ao serviço da Igreja. Bispo-auxiliar de Lisboa, durante 19 anos, um dos mais próximos colaboradores do falecido Cardeal D. António Ribeiro, Reitor da Universidade Católica de 1988 a 1996, coordenador do projecto TVI, D. José Policarpo é reconhecidamente um homem de uma grande dimensão intelectual, defensor da corrente de renovação da Igreja Católica desencadeada pelo Concílio Vaticano II, ou não tivesse ele vivido e estudado em Roma entre 1966 e 1970 para se doutorar em teologia desenvolvendo a ideia de que a Igreja deve estar atenta à história dos homens e captar os sinais positivos do reino de Deus.

Senhor D. José, muito boa noite.

Patriarca de Lisboa – Muito boa noite.

JS – Não posso deixar de iniciar esta nossa conversa com uma questão da actualidade e que tem a ver com o referendo sobre o aborto. O elemento novo que existe neste momento corresponde aos resultados de uma sondagem, por sinal elaborada pela Universidade Católica, que o Senhor D. José dirigiu, e que indicam uma vitória do “SIM” com cerca de 66% das intenções de voto.

A cerca de mês e meio da realização do referendo e tendo em conta os indicadores de opinião que vão surgindo eu pergunto-lhe: A Igreja dá esta causa como perdida?

PL – Não! Nem como perdida nem como ganha. Como a Judite sabe, nós não éramos partidários do referendo. Por uma razão muito simples, porque achamos que não é uma matéria referendável. O próprio facto de sujeitar a referendo a possibilidade legal da interrupção da gravidez parece-nos que é, sobre o ponto de vista cultural, um retrocesso. Bem… e portanto não é uma causa perdida nem ganha … eu penso que os portugueses estão diante dum momento grande da sua cultura porque são chamados a tomar posição numa matéria que é constitutiva da definição da cultura de um povo que é a posição respeitante à vida. Não é?!

JS – Segundo as mesmas sondagens, Senhor D. José, o “NÃO” não obteria pouco mais que 30% dos votos. O Senhor ficou surpreendido com esta diferença tão acentuada entre o “SIM” e o “NÃO”?

PL – Fiquei surpreendido com a desproporção da diferença entre as duas repostas. Aliás, inclino-me, embora as sondagens da Universidade Católica normalmente acertem, neste caso concreto, inclino-me, apesar de tudo, as sondagens exageram os dados. Veremos depois desta campanha de esclarecimento. É importante este período que se vai viver.

JS – Acha que ainda é possível existir um volte de face?

PL – Possível é…possível é… não lhe sei fazer prognósticos mas eu acredito que sim, porque repare, trata-se de uma questão muito crucial, não sei se é muito grande. Há um número de portugueses que neste momento já decidiram qual é o sentido do seu voto mas admito que há uma quantidade de pessoas que estão hesitantes. Até porque a pergunta que vai ser feita é uma pergunta sub-reptícia, porque a questão que é posta é se as pessoas estão de acordo ou não estão com a despenalização. Ainda há bocado ouvíamos no telejornal alguém que dizia que o que vai ser perguntado aos portugueses era acham que a mulher deve ser castigada quando faz um aborto. É evidente que essa é uma questão diferente do que aquela de perguntar aos portugueses de opinião se “SIM” ou “NÃO”, do ponto de vista moral e cultural ….

JS – A Igreja não defende essa despenalização? A Igreja perdoa…

PL – A Igreja perdoa sempre. Repare que o problema da despenalização é um problema técnico. Todos os juristas estão de acordo que em direito penal é praticamente impossível despenalizar um acto sem o legalizar. E o que está em questão neste momento não é só a questão da despenalização, quer dizer, o estado vai intervir com os seus meios, vai proporcionar activamente com os seus meios a interrupção da gravidez. Portanto, ela passa mesmo a ser legal, não é possível despenalizar sem … Se a mulher deve ser castigada ou não é um problema de jurisprudência. Eu penso que as causas atenuantes são tantas que certamente seriam muito poucos os casos em que as pessoas seriam penalizadas. Não é?!

JS – Senhor D. José, eu gostaria de perceber realmente qual é a posição da Igreja neste momento, a um mês e meio do referendo. Está conformada ou, pelo contrário, vai ter uma acção muito mais activa daqui em diante, quer nas homilias quer na retaguarda dos movimentos que se constituíram …

PL – Nós anunciámos num comunicado da assembleia plenária da Conferência, os sacerdotes, portanto a hierarquia, os Bispos e os padres, não poderão deixar de anunciar a Doutrina da Igreja. Embora, e eu gostava de sublinhar isso, aqui, nós não consideramos isto uma questão religiosa. Portanto, tem algumas intervenções públicas têm querido fazer entender isso aos portugueses que é uma questão de fé e de consciência religiosa, e não é. É realmente uma questão cultural do cidadão enquanto tal. De facto faz parte da Doutrina da Igreja! Como a Judite sabe, é um dos mandamentos da Lei de Deus, quer dizer, vem já do Antigo Testamento: “Não matarás”.

JS – Mas a Igreja reconhece que não pode limitar a intervenção do Estado nesta matéria.

PL – Não, a Igreja não pode, mas a Igreja como elemento componente importante de uma sociedade deve ajudar a contribuir para a formação, digamos assim, do sentido jurídico e moral da cultura portuguesa. O facto… o facto de não podermos, e então num Estado democrático, portanto num Estado democrático, são os próprios mecanismos da democracia que têm a sua legitimidade e não podemos impedir, agora… mas devemos intervir, não devemos ficar de braços cruzados. E se me pergunta se vamos intensificar sobre o ponto de vista de doutrinação…? Sim. Quer dizer, e como viu hoje nos telejornais há todo um grupo, um conjunto de iniciativas organizadas pelos cidadãos, que nem são exclusivamente católicos, agregam todos aqueles que são pelo “NÃO” a esta questão, e esses sim, vão usar os mecanismos normais que a lei permite para fazer a propaganda.

JS – Senhor D. José, é permitido que membros do clero possam intervir durante a campanha eleitoral, na própria campanha, nomeadamente na televisão?

PL – Não o excluo, embora a orientação que nós demos não é essa. Quer dizer, portanto, a orientação que nós demos é de que realmente os sacerdotes se mantenham, digamos assim, no seu nível de ensinamento e de esclarecimento dos fiéis, ai sim é uma obrigação que eles têm de esclarecimento da comunidade cristã, de uma matéria, que aliás, como disse à pedaço, e quer dizer, eu estou de acordo, não há propriamente surpresas em relação à Doutrina da Igreja sobre essa questão. Não, quer dizer, ela é suficientemente conhecida. Mas uma coisa é ela ser suficientemente afirmada e outra coisa é ser, diante de um acontecimento concreto e de uma circunstância concreta, ser esmiuçada e simplificada na linguagem pelo povo…

JS – Mas portanto, o Senhor D. José, admite que membros do clero possam intervir activamente no período da campanha eleitoral?

PL – Eu não lhe posso garantir que isso não vai acontecer, porque julgo que os sacerdotes são cidadãos, estão na plenitude dos seus direitos de cidadãos, e portanto, se algum deles achar que dá uma entrevista ou que participa numa…, nos não temos propriamente…

JS – Eu estava a pensar, por exemplo, nos tempos de antena.

PL – Pois… eu neste momento não tenho informação de que os tempos de antena vão ser preparados por estes grupos que se candidataram, e para lhe dizer, com toda a franqueza, eu não tenho informação que isso vá acontecer. Mas não posso excluir que aconteça, porque realmente as pessoas estão no uso dos seus direitos, embora na sua missão de sacerdote aquilo que nós lhes pedimos é que exerçam o seu dever de ensinar e esclarecer os cristãos.

JS – Senhor D. José, todas estas questões que estão subjacentes ao referendo sobre o aborto, e uma difícil aceitação da mensagem da Igreja em relação a esta matéria, não traduzem de algum modo uma certa incapacidade da Igreja em compreender o estatuto, o papel, da mulher nos tempos de hoje?

PL – Acusam-nos disso. Eu penso que diante de uma questão destas essa questão não se pode por. Porque repare… a meu ver o aborto é um drama velho da humanidade. A primeira referência que nós temos nos textos da Igreja ao aborto é do séc. III (d.C.). Portanto é um problema velho, é um grande drama da humanidade. Se reparar a humanidade, concretamente a nossa sociedade portuguesa, foi ao longo do século fazendo passos significativos na cultura da vida: aboliu a pena de morte, foi dos primeiros países a abolir a pena de morte, aboliu a escravatura…

JS – Embora a pena de morte conste do catecismo de 1992, e só à relativamente pouco tempo o Cardeal Joseph Ratsinger tenha anunciado que ela iria ser retirada …

PL – Sim, e como sabe também …

JS – Portanto não é um bom exemplo para a Igreja Católica.

PL – Não. É… é… A Igreja Católica favorece a abolição da pena de morte. O que se passou no catecismo da Igreja Católica foi admitir a hipótese dos quadros jurídicos que ainda a têm. E isso, e como disse muito bem, como lhe ia agora dizer, foi retirado na última versão do caríssimo, até porque foi contestado pela consciência católica quando isso surgiu. Mas isso está fora de questão. A igreja foi sempre uma das forças que protagonizou a pena de morte, e repara que quando há pena de morte quais são as entidades que estão na primeira linha a pedir clemência?

JS – Muitas vezes não é a Igreja Católica, Senhor D. José, muitas vezes é a Amnistia Internacional.

PL – Não. A Igreja Católica está normalmente ao lado Amnistia Internacional nesse aspecto, quer dizer, até o Santo Padre tem intervido directamente nesses casos.

JS – Eu quando o questionava sobre a difícil, por ventura, incompreensão por parte da Igreja, em relação ao estatuto e papel da mulher nos tempos de hoje, estava a recordar-me duma entrevista que o Senhor D. José deu ao semanário Expresso onde dizia que a Igreja tem que estar atenta aos sinais do mundo, o que se passa à sua volta, tem que estar atenta ao mundo dos homens por mais agressivo e por mais complicado que esse mundo seja.

VIDEO da ENTREVISTA aqui

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