“CONVERSAS SECRETAS” – O COMUNISTA “PERGUNTA” AO MAÇON

by ASCENDENS(Pt.)

Oliveira Marques – …Ahhh… Curiosamente o “25 de abril” não foi festa para muita gente que eu julgava que ia ser. Lembro-me, democratas, mas democratas puros, muito desconfiados, porque eram os militares, pensaram no “28 de maio”. Lembro-me de outros que se diziam democratas mas que no fundo estavam era ligados aos interesses capitalistas dos Mellos e companhia limitada, e tinham um terror do que é que vinha a acontecer. Só onde eu encontrei, realmente, um grupo fantástico de gente a aderir ao “25 de abril” foi o dos maçons. Aí sim, das pessoas que eu conhecia.

Baptista Bastos – E os comunistas…

O.M. – E os comunistas obviamente. Mas eu com os comunistas dava-me muito pouco. Tinha meia dúzia de amigos comunistas mas não me dava com a máquina. Dava-me com o Mário Soares alguma coisa, tinha estado na casa de Mário Soares em Paris, e dava-me com a Maria Barroso e tudo isso, mas não era suficiente para estabelecer quaisquer laços …

B.B. – Nessa altura o Prof. Oliveira Marques já era maçon?

O.M. – Eu entrei para a maçonaria em 73. Portanto, ainda na clandestinidade.

Nós nessa altura fazíamos as iniciações escondidamente. Fazíamo-las na Escola Oficina Nº 1, que funcionava na Graça e hoje já não existe. Nessa altura …

B.B. – Com um largo, aliás, muito bonito.

O.M. – Exacto… E fazíamo-las aí.

B.B. – Ahh… Mas porque é que faziam nessa escola?!

O.M. – Porque era nossa! Porque era nossa …

B.B. – Ahh… Tem piada…

O.M. – E tínhamos sempre… estávamos sempre prevenidos. Se um polícia entrasse que disséssemos que estávamos a estudar os planos de reorganização da escola e que estava muita gente porque se tinha convocado uma assembleia-geral para estudar os planos… A PIDE estava farta de saber. Mas a PIDE achava que a maçonaria não lhe fazia sombra nenhuma.

B.B. – E não fazia muita. Ou fazia?…

O.M. – Não fazia muita não. Não fazia muita porque as pessoas da maçonaria que realmente eram perigosas também trabalhavam na oposição política, e era ai que a PIDE as atacava, mas não a maçonaria em si.

B.B. – A maçonaria é uma associação secreta? Uma associação discreta?

O.M. – Não… é uma associação discreta. É tão secreta que o senhor pode ir com uma máquina fotográfica para a porta da cede, que vem na lista telefónica…

B.B. – Do Grande Oriente Lusitano…

O.M. – Do Grande Oriente Lusitano… agora há mais, mas nessa altura havia só o Grande Oriente Lusitano. O Senhor pode ir com uma máquina fotográfica para o número 25 e fotografar os que entram e saem. Não me venha a dizer que isto é uma associação secreta! Só não sabe onde é a cede da Máfia…

B.B. – Sei…

O.M. – Ou melhor, até sabemos. De certas máfias até sabemos onde é que são as cedes…

B.B. – Mas, por exemplo… Vou fazer-lhe uma pergunta. Na maçonaria reúne-se uma gente estranha, não é?! …

O.M. – Estranha?! Estranha porquê?

B.B. – Estranha porque aparentemente a ideologia não tem nada a ver muito com os outros… às vezes …

O.M. _ Têm  têm…

B.B. – …Quer socialistas e depois homens… e até tem pessoas de extrema direita. Não é?

O.M. – De extrema-direita não há lá ninguém, não está lá ninguém.

B.B. – Ai não!

O.M. – Nem extrema-direita nem do partido comunista porque o partido comunista não permite. Nós tivemos um…

B.B. – Ai o partido comunista não permite…

O.M. – Não permite. Pelo menos não permitia até há quatro anos. Se permitisse o caso era com ele, porque de nossa parte deixávamo-lo entrar. Porque o que exigimos é que as pessoas não aceitem dogmas, sejam pessoas, portanto, livres de espírito, e que ponham acima de tudo os valores da fraternidade, solidariedade, igualdade, e liberdade etc…

B.B. – O senhor foi grão-mestre?

O.M. – Fui grão-mestre adjunto. Fui grão-mestre adjunto e fui “soberano grande comendador” que é um cargo ritualista que é o número 1 do grau 33. São cargos que dão muito trabalho, e depois …

B.B. – O senhor fala da maçonaria com grande entusiasmo.

O.M. – Falo. Eu gosto da maçonaria, gosto da maçonaria.

B.B. – Continua a ir às reuniões hoje?

O.M. – às reuniões. Sim senhor, sim senhor.

B.B. – Aqui há tempos numa entrevista disseram o seguinte: “Em todas as universidades do mundo há correlação com a maçonaria. Diria mais, uma universidade que tiver uma forte participação de maçons com certeza será uma universidade com condições à partida para singrar melhor.

O.M. – É o que não se dá em Portugal. Por isso as universidades não singram bem. Ou seja, em Portugal há poucos maçons universitários.

B.B. – Mas porquê? Não têm acesso?

O.M. – Não não… Porque a maçonaria em Portugal ainda é muito… ainda suscita grandes desconfianças. Suscitas perseguições. É-se perseguido por se ser maçon. Eu não fui reitor da minha universidade por ser da maçonaria, não tenho a menor dúvida a esse respeito. Quer dizer, a maçonaria…

B.B. – É uma coisa odiosa?!…

O.M. – Ahh… sim sim. O pertencer à maçonaria, hoje em dia, para a maioria, e sobretudo para o establishment, é muito mais gravoso do que pertencer à Opus Deis. A Opus Deis até parece que é um canal de subida.

B.B. – Eu ia-lhe falar nisso…

O.M. – É um canal de subida.

B.B. – … que há uma guerrinha entre a maçonaria e a Opus Deis…

O.M. – Não é uma guerrilha, é uma guerra total. Para nós a Opus Dei é como se fosse o fascismo. Quer dizer, é uma coisa totalmente escravizadora do homem.

B.B. – Diga lá para nós percebermos, as pessoas não sabem. Escravizadora porqê?

O.M. – Nunca leu o “Camino” do Monsenhor Escriba de Balaguer?

B.B. – Não.

O.M. – Ahh… mas leia. Isso é uma coisa espantosa, sobretudo quando se vê que aquilo foi escrito em 1934. Porque aquilo parece um livro do séc. XVI. Nenhum “opus dei” pode fazer, quer seja o que for, sem o conselho do seu orientador espiritual, que é um padre. O que se diz, por exemplo, dos maçons é que são uns diabos saídos das alfurjas para escravizar a humanidade…

B.B. – Disse o Monsenhor Escriba?

O.M. – Disse o Monsenhor Escriba. (risos) E diz outras barbaridades deste género. É uma …

B.B. – Mas este tipo de barbaridades ainda é praticado, é?

O.M. – Ahh… não será praticado mas é pensado.

B.B. – O que às vezes é pior.

O.M. – O que às vezes é pior. E eu penso que o maçon continua a ser encarado aqui, em Portugal, um pouco como o judeu no tempo da Inquisição. Quer dizer, o maçon é um indivíduo a pôr à margem. Aliás, eu estou claramente na prateleira, há muitos anos. Logo que os resquícios do 25 de abril desapareceram, aí por meados da década de 80, aí ffffst passei para a prateleira. E olhe que vão ao ponto de hoje não me citarem embora utilizem os meus livros. Claro que não vou dizer que isto é tudo a Opus Dei. Mas que a Opus Dei e a opinião pública anti-maçónica e católica, dita católica, eu não considero isso catolicismo, tem um papel importante tem, ai isso tem, não tenho a menor dúvida a esse respeito.

As pessoas quando eu olho…

Às vezes divirto-me imenso, num grupo de católicos dizer que sou da maçonaria, e dizer assim: “olhe, nós comemos criancinhas ao pequeno-almoço…

B.B. – Isso é o que se dizia dos comunistas.

O.M. – … ao pequeno-almoço, e depois ao almoço regamos … metemos mais criancinhas e regamo-las com outros molhos, e tal…” As pessoas não se riem! Ou fazem assim o sorriso amarelo. Porque dizem: “ai quem será este que está aqui à minha frente e que eu meti aqui na minha casa e tal..”. Bem… se são pessoas civilizadas, e muitos cristãos civilizados. Mas está é a opinião que têm, inclusivo, grandes eclesiásticos, grandes sacerdotes e Bispos. Não vou dizer nomes mas há Bispos que pensam assim. Há reitores de universidade, há professores de universidade e há estudantes de universidade que consideram o maçon qualquer coisa como o Diabo à frente. Não é?… Isto na Europa civilizada… isto na Europa civilizada…!!! O senhor não calcula como as coisas são. Nós na maçonaria em vez de perseguirmos, como eles dizem que nós fazemos, que perseguimos os outros e que constituímos uma máfia não sei que.., nós é que somos perseguidos, nós é que somos descriminados. E em Espanha é muito pior.

B.B. – Mas vocês não fazem algum espírito de certa entreajuda?

O.M. – Sim que temos um espírito de entreajuda e isso vale-nos, claro. E temos muita gente boa e muita gente importante e tudo o mais.

VÍDEO da entrevista.

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