MODERNISMO DIFUNDIDO PELA CEP (II)

by ASCENDENS(Pt.)

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SECRETARIADO NACIONAL DE LITURGIA DE PORTUGAL

BOLETIM DE PASTORAL LITÚRGICA (nº 121 – 122)

Janeiro – JunhoAno 2006

Nome do Artigo: “D. TOMÁS GONÇALINHO DE OLIVEIRA” (pag. 33 a 36)

Autor: João da Silva Peixoto

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“Entrevistei-o em Singeverga, no dia 24 de Junho de 1989. Os apontamentos que se seguem reproduzem fielmente as notas que então recolhi. Bastante fresco para os seus 89 anos, magro, olhar vivo. […]

MEMÓRIA DO MOVIMENTO LITÚRGICO EM PORTUGAL

O seu grande mestre foi o Pe. António Coelho que recorda com saudade. Fez parte do grupo que ele guiou a Samos e, depois, à Falperra. O seu olhar ilumina-se ao falar com entusiasmo da experiência inolvidável desses tempos épicos da restauração beneditina em Portugal, sob a liderança efectiva do Pe. António Coelho. Em relação ao movimento litúrgico, não se pode dizer que António Coelho tenha sido o seu iniciado em Portugal. Esse título atribui-o a Mons. Pereira dos Reis, de quem também guarda muitas e gratas recordações. Pereira dos Reis frequentava todos os anos, pelas férias do verão, os mosteiros beneditinos europeus, sobretudo da Bélgica. E estava por isso a par de tudo o que por lá fora se ia fazendo neste âmbito. Contudo, a acção de Pereira dos Reis não tinha projecção nacional. Mais tarde, enquanto reitor do Seminário Maior dos Olivais, onde se formam padres de outras dioceses para além de Lisboa, a sua acção passou a ter um influxo mais amplo. Nomeadamente no capítulo do Canto Gregoriano, o Seminário do Olivais teve grande influência, sobretudo com as transmissões radiofónicas da missa cantada aos domingos. António Coelho, portanto, não foi o “iniciador”. Mas foi o verdadeiro protagonista principal, o “propagador” do movimento litúrgico em Portugal.

Para o Pe. Tomás, em termos de movimento litúrgico a revista Opus Deis teve mais influência do que o Curso de Liturgia Romana. Redigido de forma algo precipitada para a primeira edição, o Curso tinha ainda uma base ritualista, rubricista. O Pe. António Coelho deixou adiantados os trabalhos de revisão para a 2ª edição, que não chegou a ver publicada. Nela trabalhou, inicialmente, o próprio Pe. Tomás e, depois, o Pe. Paulo de Carvalho que a ultimou (e com o qual teve algumas divergências, precisamente por causa do Curso). Na 2ª e 3º edição, o Curso melhorou. E teve, certamente influência na formação do clero em Portugal durante uns 20 a 30 anos. Entretanto, na opinião do Pe. Tomás, na evolução das mentalidades e na dinamização de um verdadeiro movimento litúrgico, a revista Opus Dei foi muito mais influente. Tinha muitos assinantes, inclusive entre o laicado.

Desta fase, D. Tomás recorda uma polémica com a revista Mensageiro do Coração de Jesus a propósito da legitimidade da Missa Dialogada. Foi também nesse período que o Pe. Tomás se estreou nas lides literárias. Ainda recorda o título do primeiro artigo, que lhe foi “imposto” por D. António Coelho: Jesus Cristo nos Salmos [in Opus Dei 5 (1930-31) 82-831]. O saudoso director de Opus Dei punha os seus noviços e alunos a fazerem recensões, a ler e traduzir artigos de outras revistas estrangeiras – foi assim que apareceu italiano – e de quando em quando encomendava-lhes algum pequeno artigo cujo tema e título ele próprio indicava. Por essa época o Pe. Tomás assegurava, em colaboraçã com o Pe. Roberto de Oliveira, seu companheiro de noviciado, a secção de consultas da Revista … (Mais tarde as assumirá idênticas secções no Mensageiro de S. Bento, na Lúmen e em Ora & Labora). Recorda o Pe. Tomás que as perguntas eram quase sempre autênticas. Mas, por vezes, eram construídas a partir de situações observadas. Recorda uma “resposta” que deu, anos mais tarde (no Mensageiro de S. Bento), a uma consulta que inventou para ir ao encontro de uma situação que não era excepcional: a de comunidades religiosas em que todas as freiras comungavam por sistema antes da Missa sob pretexto (alegado por uma superiora das Irmãs Franciscanas de Calais) de assim poderem fazer a acção de graças durante a Missa…

A morte prematura do Pe. Coelho foi muito prejudicial para o movimento litúrgico. Pouco antes, a própria revista Opus Dei tivera de ser suspensa porque não havia ninguém com possibilidades de assumir a sua direcção…

A Revista Mensageiro de S. Bento procurou manter acesa a chama da liturgia. Até 1948, ano em que partiu para Lamego o Pe. Tomás foi, na prática, o director dessa revista. De 1947 a 1951 publicou-se um suplemento que podia ser assinado independentemente – Liturgia – e que, na prática, era dirigido pelo Pe. Paulo Carvalho. Quando regressou a Singeverga, em 1951, a situação das revistas era insustentável e elas foram interrompidas. A partir de 1954 passou a publicar-se uma nova revista, sob a designação já anteriormente adoptada pelas Edições do Mosteiro: Ora & Labora. Até 1961, data em que regressa a Lamego, sobretudo por motivos de saúde, o Pe. Tomás será o seu principal responsável. Nessa época, também, desenvolve intensa actividade em prol do movimento litúrgico.

Transcendendo o plano nacional, para D. Tomás as grandes referências eram Odo Casel no plano teológico (desde os anos 40) e Pius Parsh nas orientações práticas. O pensamento do Odo Casel era tão profundo que não se lhe via o fundo… Foi muito criticado e, sobretudo, incompreendido pela sua teoria dos mistérios. Mas o Concílio Vaticano II veio vingá-lo.

A HIERARQUIA PORTUGUESA PERANTE O MOVIMENTO LITÚRGICO

Qual a atitude da hierarquia Portuguesa em relação ao movimento litúrgico? O Pe. Tomás reconhece que a mentalidade dos Prelados Portugueses não era muito “litúrgica”. Um dos mais abertos era o Cardeal D. Manuel Gonçalves Cerejeira. Mas mesmo assim, de uma vez que Mons. Pereira dos Reis lhe pediu licença para usar “casulas amplas”, este não quis “tomar conhecimento do pedido” alegando que o Episcopado Português decidiria em comum não autorizar esse tipo de paramentos e que não queria ser ele a abrir qualquer precedente…

Mais hostil era o Arcebispo de Braga D. Francisco Maria da Silva, que era o contrário a que o clero da arquidiocese assinasse as revistas de Singeverga… Houve mesmo um enfrentamento entre o Arcebispo primaz e o Pe. Tomás. Foi em Guimarães, numa sessão pública. D. Tomás recomendava a prática da comunhão dentro da missa e com hóstias consagradas na mesma celebração. Era uma posição já consagrada pelo próprio Magistério. E, para a reforçar, recorreu a um exemplo: dar a Comunhão na Missa a partir da Sagrada Reserva, por princípio e com regra, seria como num banquete de festa servir aos convidados alimentos confeccionados para a refeição da véspera. O arcebispo tomou então a palavra para o censurar, proibindo-o de repetir tal coisa na Arquidiocese. Isto passou-se no fim da sessão da manhã. O Pe. Tomás pretendia justificar-se e esclarecer o seu pensamento na sessão da tarde, mas o arcebispo ausentara-se e esclarecer o seu pensamento na sessão da tarde, mas o arcebispo ausentara-se e presidia à sessão um bispo auxiliar. Este explicou-lhe então que o movimento da reacção tão veemente de D. Francisco Maria da Silva estaria relacionado com um facto alegadamente ocorrido no Seminário dos Olivais: a comunhão era ministrada habitualmente na Missa e com as partículas consagradas na própria celebração. Alguns seminaristas teriam então desistido da sagrada comunhão sob pretexto de que não comiam sobras… D. Francisco terá visto na comparação feita pelo Pe. Tomás uma inaceitável convalidação do suposto argumento dos seminários dos Olivais… Daí a sua reacção escandalizada.

A propósito de Seminário dos Olivais, o Pe. Tomás Gonçalinho referiu outro episódio. Ele e Mons. Pereira dos Reis trabalharam em equipa na elaboração do rito do Baptismo para o Ritual Bilingue Português. E havia divergências entre eles em relação à colocação da Epphetta. O Pe. Tomás apresentava o argumento das fontes. Mas Pereira dos Reis, que nessa é poça vivia em Singeverga como oblato beneditino, desafiou-o a pensar também pela própria cabeça… Contrapôs-lhe o Pe. Tomás: “isto está bem para o Monsenhor, que sabe muito”. E a conversa terminou por ali. No fim do dia, Mons. Pereira dos Reis veio dizer-lhe que aquelas palavras lhe tinham ocasionado a mágoa de reviver uma época dolorosa do Seminário dos Olivais em que o acusaram de heresia… Mais adiantou o Pe. Tomás que Mons. Pereira dos Reis era criticado por não celebrar em privado nos dias em que assistia à Missa de Pontifical presidida pelo Patriarca, e na qual comungava… Tinha também uma teoria pessoal acerca da consagração que seria realizada por todo o cânone e não apenas pelas palavras de Jesus…

A COMISSÃO NACIONAL DA LITURGIA

Das suas relações com a hierarquia faz parte a experiência como Secretário da Comissão Nacional, ao tempo em que D. Florentino de Andrade e Silva era o presidente. D. Florentino era de relacionamento difícil. Recorda que ao partir para uma viagem ao estrangeiro, D. Florentino lhe pediria um esquema para a organização do Secretariado Nacional e que ele elaborou uma proposta e lhe disse para fazer cópias para todos os bispos. À sua chegada, o Pe. Tomás entregou a D. Florentino, o programa e as cópias. Mas ele não gostou do projecto e arquivou as cópias, não as distribuiu (pelo menos, a todos os Bispos)… Quando lhe apresentou o pedido de demissão – cuja aceitação, ao contrário da nomeação, foi publicada na Lúmen – , alegou problemas de saúde e falta de condições de trabalho… Sucedeu-lhe o Dr. Justiniano Santos do Porto, durante cerca de meio ano. Não aguentou mais tempo… Foi durante o mandato do Dr. Justiniano que se reuniu na casa da Buraca para acertar a versão comum dos diálogos do Ordinário da Missa. E foi então que, não havendo consenso quanto à resposta em português ao Dominus Vobiscum, foi feita uma consulta-experiência a um grupo do “Movimento para o Mundo Melhor” que estava nesses dias na casa da Buraca. O “Ele está no meio de nós” foi ai encontrado e é um eco próximo de uma das saudações típicas desse movimento… Ao Pe. Justiniano sucedeu no Secretariado Nacional o Pe. Barbosa Pinto, Jesuíta, A este, por fim, foram dadas as condições mínimas de trabalho por que lutaram os dois anteriores…

O CANTO GREGORIANO

Um dos capítulos em que o Seminário dos Olivais maior influxo exerceu para além de Lisboa foi, como já se disse, o do canto gregoriano. Aqui também Singeverga desenhou algum papel, nomeadamente com as audições comentadas transmitidas pela Emissora Nacional nas Quaresmas de 1941 a 1944. O Pe. Tomás era comentador habitual dessas “concertos espirituais” e alguns dos textos lidos aos microfones da Emissora Nacional foram também publicados no Mensageiro de S. Bento. Estas audições radiofónicas, gravadas em condições técnicas muito deficientes pelo Coro Gregoriano. Mas o Pe. Tomás considera que as transmissões radiofónicas que depois de se começarem a fazer da Missa dominical cantada pelo Seminário dos Olivais tiveram impacto maior e mais duradouro. Foi também o Seminário dos Olivais quem teve a iniciativa da primeira Semana Nacional de Canto Gregoriano. Posteriormente a D.ra Júlia Almendra organizou uma série de semanas de canto gregoriano e convidou o Pe. Tomás a fazer uma comunicação naquela que foi publicada como “a primeira” Semana Nacional”. O Pe. Tomás Gonçalinho Aceitou o convite mas começou por ressalvar que a primeira Semana Nacional fora já organizada pelo Seminário dos Olivais, observação que desagradou à organizadora… Mais tarde Júlia Almendra promoveu a criação do “Centro de Estudos Gregorianos” de Lisboa e organizou uma “Liga dos amigos do canto gregoriano”. Mas não aceitou conselhos no sentido de vincular essa iniciativa à Igreja. Era uma pessoa muito independente. O resultado pois que em Portugal o movimento a favor do canto gregoriano se desvinculou parcialmente do movimento litúrgico. O seu interesse estava mais voltado para promoção dos valores estéticos do canto gregoriano do que para a pastoral do canto gregoriano na liturgia…”

(Texto transcrito por ASCENDENS)

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